À espera de dias melhores

Nem tudo no Centro é Porto Maravilha. Ali no Santo Cristo, atrás da Francisco Bicalho, perto de um depósito de VLTs e ao lado do esqueleto de uma construção abandonada, que aparentemente nasceu para ser um dos grandes empreendimentos dos tempos de euforia já passados, há alguns galpões antigos, velhas instalações ferroviárias sem qualquer charme para quem as vê de fora. Um deles, porém, entrega a alma de artista, com a fachada enfeitada com banners em que se destacam os nomes dos patrocinadores. É o Galpão Aplauso, um daqueles milagres improváveis que, aqui e ali, brilham como esperanças no nosso cotidiano.

Para lá do muro, o Aplauso é uma área agradável e acolhedora. Tem 14 mil metros quadrados, uma quantidade de árvores frondosas, espaços generosos, paredes pintadas com letras e cores vivas. Por lá passam, todos os dias, cerca de 600 jovens entre 16 e 29 anos, e o ambiente vibra com a sua animação. Eles vêm de comunidades carentes, e estão lá em busca de um futuro; de quebra encontram amigos, se divertem, desenvolvem talentos.

— É como um clube — compara Ivonete Albuquerque, a diretora da instituição.

E é mesmo: aqui há uma roda de música, ali há uma turma ensaiando números de circo, há aulas de pintura e teatro.

Mas toda essa atividade lúdica é enganadora. Por trás do que parece brincadeira, o Galpão dá ferramentas sólidas para os jovens, que saem empregados na indústria, no comércio e na marinha mercante. Anteontem, por exemplo, numa sala fechada e refrigerada, separada do zumzumzum geral, uma turma de alpinistas industriais tinha as últimas aulas teóricas antes de partir para o mundo profissional. Todos já estão empregados numa multinacional, e é provável que alguns acabem indo para o exterior. Rapazes e moças que passaram pelo Galpão volta e meia reaparecem para contar como vai a vida e falar das suas aventuras pelo mundo: ainda outro dia, um deles voltou da Noruega, onde foi buscar um navio.

Com cinco meses de instituição, eles já têm o dobro de chances de se empregar no mercado formal, e passam a ganhar, em média, 46,19% a mais do que ganhavam. Mas o caminho não é fácil.

— Eles chegam extremamente despreparados — diz Ivonete, idealizadora do Galpão e sua diretora executiva. — Todos vêm do sistema escolar, mas muitos não sabem ler e a maioria não sabe efetuar as quatro operações. Além disso, precisam transpor um verdadeiro abismo cultural. Eles não imaginam o que se espera deles num ambiente de trabalho porque nunca ninguém lhes falou disso. Cospem no chão não porque são rebeldes, mas porque no ambiente em que vivem isso é considerado normal, assim como jogar lixo em qualquer lugar. As meninas não sabem que não devem ir a entrevistas de trabalho de shortinho.

Tudo começou quando, em 2004, ela passou por um assalto em casa. Em vez de instalar grades, resolveu abrir algumas janelas metafóricas, e foi tentar saber o que levava gente tão nova a cometer atos de violência. Descobriu um mundo de desigualdade e de falta de oportunidades, e resolveu fazer alguma coisa em relação a isso. Conseguiu um espaço da prefeitura e imaginou dar asas a uns 20 jovens. Ser economista ajudou: obteve um financiamento do BID. Mas uma das exigências do banco foi que o projeto se estendesse a pelo menos 300 pessoas. Lá se foi o antigo emprego: Ivonete passou a se dedicar integralmente ao Galpão.

Encontrar uma forma de ensinar àqueles meninos e meninas tão maltratados foi um longo aprendizado para ela e para a equipe que foi se formando à sua volta. Os jovens vinham de uma tradição oral, de um universo em que a aprendizagem formal havia fracassado retumbantemente. Não tinham informações sobre a sociedade em que queriam se inserir, nem conseguiam desenvolver processos mínimos de reflexão.

A metodologia de ensino, desenvolvida através de erro e acerto, tem, hoje, três fases distintas. Na primeira, os alunos, que recebem dinheiro para a condução e almoçam e lancham no Galpão, trabalham em oficinas artísticas, que lhes dão autoconhecimento e confiança. Fazem jogos de raciocínio lógico e uma oficina da palavra, que são camuflagens para conhecimentos de matemática e português, e se dedicam a aprender valores e virtudes, ou seja, as regras do convívio social. Na segunda fase, trabalham com percepção e reflexão, recebem reforço escolar e aprendem técnicas profissionais. Na terceira fase, na qual só são aceitos depois de passar pela segunda, recebem treinamento específico para certos ofícios, como os alpinistas que encontrei.

O mais importante é que, ao longo desse processo, todos se tornam seres humanos melhores, capazes de ganhar o seu sustento e de transmitir o que aprenderam. Deixam de ser cidadãos passivos e passam a pensar, porque aprendem a interpretar o mundo em que vivem.

Este trabalho admirável vem sendo reconhecido no mundo todo. Recentemente, o Galpão Aplauso recebeu o “Development Impact Honors”, concedido pelo Tesouro dos Estados Unidos em reconhecimento ao seu método de educação inovadora.

Infelizmente, o Galpão já viveu dias melhores. Em 12 anos de existência, ajudou mais de 11 mil jovens a desenvolver os seus talentos e a encontrar emprego; hoje, porém, um dos seus projetos está desativado por falta de patrocinador, e os 1,2 mil meninos e meninas que poderiam estar lá foram reduzidos a 600. A fila de candidatos, no entanto, passa de três mil.