Uma provocação iniciou a pesquisa. Como contar, através de um show, a sinergia entre os movimentos musicais populares nas culturas do Brasil e dos Estados Unidos? E a pesquisa gerou um debate: o que temos em comum com eles e o que nos diferencia.
O resultado você verá a partir de 26 de julho, quando o Galpão Aplauso estreia a temporada de ‘Um Único Grito’ – e muitos cantos, na Zona Portuária do Rio de Janeiro. Com supervisão artística de Stella Miranda, direção musical de Eder Targino, e de movimento de Eduardo Gomes, a criação e a concepção do espetáculo foram feitas coletivamente, com participação ativa dos jovens que integram a Companhia de Arte do Galpão Aplauso. O patrocínio é da Petrobras e da Secretaria Estadual da Cultura, por meio da Lei de Incentivo.
Ivonette Albuquerque, idealizadora do Galpão Aplauso, que há 13 anos atende adolescentes e jovens em risco social da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, explica a escolha do tema.
“Nesse período, tendo mais de 11 mil meninos e meninas que passaram por aqui, observamos uma mudança no perfil musical consumido por eles. Inicialmente, o samba e o pagode eram as referências mais constantes. Hoje, eles se expressam mais com o pop, o rock e o funk. Sendo assim, resolvemos fazer essa conexão ampla e contar a história da evolução da música popular. Sem rigor cronológico nem qualquer intenção de sermos didáticos, mas com uma linha condutora principal: o grito que permanece. Os cantos se transformam ao longo das épocas, mas a música e a arte deram voz às gerações que lutaram por seu reconhecimento e espaço na sociedade. Exatamente como esses jovens”, conta Ivonette.
O Consulado Americano no Rio de Janeiro teve papel importante nesse processo, tendo proporcionado aos jovens do Galpão Aplauso um intercâmbio cultural e profissional por meio de wokshops com DJ, MC, Beatmaker e Dança ao lado de artistas e educadores norte-americanos de referência no movimento Hip Hop.
Para o diretor musical Eder Targino, o processo criativo foi enriquecedor e transformador para todos.
“A maioria dos jovens não conhecia as referências que trouxemos inicialmente, como as origens históricas do blues, do jazz, do samba e do choro. Fomos apresentando, contando e cantando, e eles logo passaram a trazer novas referências. Com isso, criamos pontes entre os cenários para a existência de cada um desses ritmos musicais negros. Por exemplo, a forma como a polícia reprimia os clubes clandestinos de jazz nova-iorquinos, entre as décadas de 1920 e 1950, e a repressão sofrida pelos primeiros núcleos de samba no Rio de Janeiro, no início do século XX. O clássico “Pelo telefone”, de Donga, primeiro samba gravado no Brasil, em 1916, faz a transição entre esses dois cenários: o ambiente marginal do jazz e do blues, com gângsteres e mafiosos, e o ambiente marginal do samba com a figura, hoje romântica, do malandro”, explica Targino.
SERVIÇO
‘Um Único Grito’ – e muitos cantos – Galpão Aplauso
Temporada: de 26 de julho a 05 de agosto
Quando: Quarta a sábado
Hora: 18h30
Local: Galpão Aplauso
Endereço: Rua General Luís Mendes de Moraes, 50 – Santo Cristo
Maiores informações: (21) 2233-6648 | 98283-0000
Entrada gratuita
(VLT em frente, com a opção de estacionamento no local
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FICHA TÉCNICA
Supervisão Geral – Ivonette Albuquerque
Supervisão Artística – Stella Miranda
Direção Musical – Eder Targino
Direção de Movimento e Dança – Eduardo Gomes
Preparação de Circo – Rodrigo Garcez
Iluminação – Anderson Ratto
Sonorização – Thiago Pinto
Produção – Ana Melo e Thiago Guimarães
Instrutor Circo – Thiago Merlino
Elenco Companhia Aplauso – Adriany Martins, Ana Livia Dalto, Beatriz Moreira, Andressa Duarte, Caio Mesquita, Denise Xavier, Flavia Falcão, Giullia Romeira, Jorge Luccas, Laary Sant’ss, Lucas Melo, Lucas Lima, Felix Marques, Matheus Jordan, Tony Mayke, Rodrigo Canuto, Yuri Muniz.
Profissionais convidados – Ex-integrantes da Companhia Aplauso: Wal Azzolini, Wagner Cria, Igor Frazão, Cleber Brown
Agradecimentos – A todos os alunos, parceiros, colaboradores e funcionários do Galpão Aplauso
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‘Um Único Grito’ – e muitos cantos
“Uma alvorada para terminar a longa noite de seu cativeiro” (Martin Luther King) Ao traçar um paralelo das perspectivas dos movimentos sociais e culturais expressos em diversos estilos (blues, rhythm and blues, jazz, gospel, soul, black music, hip hop, funk, choro, samba e até mesmo bossa nova), ‘Um Único Grito’ – e muitos cantos mostra a importância desse legado à música ocidental do último século, levando ao palco um repertório expressivo dessa valiosa contribuição. Em cena, dos primeiros lamentos entoados pelos negros escravizados nas plantações de algodão nos Estados Unidos e nas rodas de maculelê e capoeira nos canaviais brasileiros, à arte de rua que privilegia no hip hop a palavra, o ritmo e o corpo que dança. Essa capacidade de improviso herdada desde o Spiritual e o Jazz permite que hoje, dos guetos e periferias, a realidade continue a ser transformada pelo legado ancestral de um povo que não tem mais somente uma cor, e é mais que uma raça. O traço histórico que costura o show faz ecoar, ainda hoje, o primeiro grito de transformação e permanência.
Por Eder Targino